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O passageiro

Por Karina Tarabay   Somos aquele que passa. Feitos de impermanência e movimento, aprendemos, com o passar dos anos, que…Leia mais.

Por Karina Tarabay

 

Somos aquele que passa. Feitos de impermanência e movimento, aprendemos, com o passar dos anos, que nada nos pertence. Apegar-se à ideia de que temos coisas, pessoas, tempo e, até mesmo, verdades só nos traz dor e inquietude.

Mesmo as relações mais antigas passam por muitas transformações que exigem ajustes, emendas e reorganizações. Amizades, casamentos e a vida familiar são o nosso maior exercício de reestruturação.

Aprender como nos relacionar com a natureza efêmera da existência é uma lição de casa urgente. As pessoas e situações são presentes transitórios e finitos. Elas não nos pertencem, portanto, que possamos nos reeducar a ter uma atitude de superlativa valorização de cada segundo ao experimentá-las – e, até mesmo, de experimentar a nós mesmos, já que também somos palco de mudanças extraordinárias e constantes.

Assim, se faz necessário um recondicionamento de nossos conceitos de vida feliz. A maioria de nós está sempre buscando um resultado, específico e adiante, e deixa de perceber todos os detalhes do caminho construído até ele. A viagem deve ser imbuída de significado, não importando se atingiremos ou não o destino.

É muito desgastante levantar-se para trabalhar todos os dias com o objetivo de juntar trocados para, só então, conquistar algo que realmente se deseja, por exemplo. Quantas pessoas passam a vida e pela vida na expectativa de uma realização que nunca chega? Um dia marcado por sacrifício é triste, mas um conjunto interminável deles é autodestruição declarada.  E, nesse mundo mutante, quando se chega ao famigerado objetivo, ele sequer importa mais. No fim, os anos consumidos em busca de tal meta foram em vão.

Que possamos executar cada pequena ação pelo seu significado imediato. A motivação de nossas atitudes estará em desfrutar do instante exato, independentemente dos frutos que nascerem deles. Podemos sonhar, planejar e buscar, mas o percurso precisa transbordar prazer e contentamento. A liquidez dos segundos nos faz, além de valorizar o instante, abrir mão das expectativas.

Assim, os professores poderão desfrutar de cada sinapse provocada em seus pupilos pela passagem de conhecimento. Nessa nobre missão de compartilhar sabedoria para garantir que seus alunos sejam notáveis naquilo que escolherem ser, os educadores devem encontrar a satisfação no processo, desempenhando sua ventura com entusiasmo, ainda que os resultados não sejam, todos, um retrato exato de seus sonhos. O arquiteto se realizará com cada traço contido em seu projeto, enquanto o bailarino poderá se sentir completo em cada movimento que o corpo manifestar, dentro e fora do espetáculo.

Libertos das promessas do que será, também conquistaremos relações humanas mais legítimas, fundamentadas naquilo que o outro é – e não no que queremos que ele se torne. Isso nos poupará incontáveis decepções. Amar e reconhecer familiares, amigos e parceiros pelo que são, hoje, não impede que participemos de seu aprimoramento, mas evita que torturemos a eles e a nós mesmos com exigências e reclamações por não corresponderem a tais projeções e fantasias.

É chegada a hora de reconfigurar nossas intenções e colocar olhar e disposição nas pequenas coisas. Na senda do cumprimento de nosso propósito de vida, nos transmutando em tudo aquilo que temos o potencial para ser, aproveitemos cada passo e companhia. Afinal, saber que tudo e todos são transitórios não os torna ausentes de significado, e sim repletos dele.

Eternizemos o finito concedendo-lhe a importância que merece, carregando na construção de quem somos todas as pessoas e experiências passadas, sem a ilusão de que podemos acorrentá-las a nós. Passageiros da existência, poderemos partir e deixar partir com alegria e lucidez.

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