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O homem coletivo

Por Karina Tarabay   Há muito, as sociedades modernas se afastaram do contato com a natureza e as pessoas separaram…Leia mais.

Por Karina Tarabay

 

Há muito, as sociedades modernas se afastaram do contato com a natureza e as pessoas separaram o indivisível: o homem coletivo. Me refiro a noção do liame que nos une como espécie e civilização.

Como exploradores de terras mais férteis e de um futuro mais próspero, abundante em recursos, triunfamos em nos espalhar e descobrir novas possibilidades na Terra rica e vasta. Por fim, nos organizamos em cidades, acumulamos bens, conquistamos avanços nas ciências, artes e filosofia por meio da hipertrofia da mente racional.

Mas, as novas formas de sociedade separaram os grandes grupos e a racionalidade ainda não deflagrou o que a intuição acusa furiosamente: precisamos estar conectados de maneira profunda com uma comunidade. Vivemos em nossas casas e corpos feitos de concreto e isolamento nas metrópoles apressadas e frias.

É incompreensível cruzar com um outro ser da mesma espécie (no elevador, na rua, no metrô) e não ter nenhum tipo de interação, nem mesmo uma troca de olhares, um dedicado ” bom dia  “, um interesse genuíno naquela pessoa tão complexa e interessante quanto todos os demais seres humanos. Muitos de nós vão ainda mais longe: evitam o contato e até mesmo a percepção de que há mais pessoas circulando por esse mundo além de si. Na busca frenética de nós mesmos, das nossas necessidades, identidades, reconhecimentos e propósitos, terminamos por valorizar a solidão, não apenas a individualidade.

 Resquícios da vida ancestral, das grandes tribos de pessoas interconectadas e que tinham o entendimento da importância de uma vida compartilhada, comprometida com a história, evolução e bem estar dos demais, hoje nos organizamos em células familiares. As famílias são uma tentativa de representar e vivenciar o coletivo em escala mais modesta. A má notícia é que falhamos. A maioria vive só e mora com mais pessoas.

A ruptura do senso de integralidade nos deixou com o sentimento profundo de vazio; a clara noção de que há algo faltando. Então passamos a vida obcecados por preencher esse buraco:alguns apostam em consumir coisas em exagero, outros em comer em demasia, ou trabalhar em algo que não gosta para preencher as horas e pagar os itens anteriores. Acumulamos também relações descartáveis e, para aquelas que finalmente conseguimos construir bons alicerces, reservamos as infindáveis cobranças, estabelecendo que nossa felicidade depende exclusivamente do que o outro pode nos proporcionar, no momento que carecemos e determinamos.

Imersos nesse isolamento culturalmente herdado, também esquecemos de como criar intimidade, mesmo com aqueles que nos são mais caros. Perdemos a capacidade de abrir espaço a alguém com quem temos identificação e nos entregar, sem reservas. Membros da família, amigos, parceiros, merecem um relacionamento profundo, desprovido das inseguranças que só uma vida solitária pode conter.

Afinal, se tivermos uma comunidade consciente da importância da união e troca e possuirmos inúmeros relacionamentos sadios e consistentes, o cenário torna-se incrivelmente diferente. Se um de nossos relacionamentos não vai bem, os demais podem preencher nossos corações e, principalmente, nos auxiliar a solucionar as questões com o primeiro. Nunca estaríamos sós, então também não haveria o que temer no momento de constituir uma nova relação, tornando cada entrega muito mais natural e descomplicada.

Devíamos nos inspirar nas crianças que sem a menor cerimônia aproximam-se umas das outras e convidam para brincar. Surpreendem o novo amigo com um abraço apertado e sincero, se jogam na grama e desfrutam dos minutos preciosos da companhia alheia. Compartilham brinquedos, comida e experiências. Ainda ninguém contou a elas a regra que vão aprender mais tarde: separem-se, protejam-se, estamos aqui para competir, temer e dominar!

Urgente é a tarefa de estarmos inserido em um grupo, ou vários, no qual encontremos a completude de que tanto precisamos. Criemos nossas pequenas tribos, de gente parceira, que considera o convívio verdadeiros reencontros com a nossa essência coletiva; algo que vai muito além dos nossos nomes e egos, e que faz o coração festejar com um frescor de infância. Derrubemos os muros de proteção e desfrutemos da felicidade que só a verdadeira intimidade proporciona.

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